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O colecionador de fracassos

Ediney Santana
Dizem que para se viver feliz é preciso reconhecer os fracassos, eu tenho uma coleção deles. Fracassos foram utopias que deram em lugar algum, aliás, utopia é isso mesmo, lugar algum. Todas as utopias são bem intencionadas do ponto de vista de quem as têm. Mas há um problema com as utopias: não são práticas, pena que só notamos isso quando elas dão erradas. 
Tentei ser professor, com paixão e entusiasmo cursei Letras, fracasso absoluto, nunca fui um bom professor, desconheço um só aluno que eu tenha feito algum bem pedagógico. Tentei ser político (a mais trágicas das minhas utopias) Foram anos no Partido Comunista, quando deixei a militância não me deram nem um muito obrigado, se tivesse trabalhado o mesmo tempo na Coca-Cola eles me davam uma carta de referência. Achando pouco e vida de militância entrei para o PV e fui candidato vereador, tive 150 votos, não ganhei a eleição e amarguei alguns meses sem emprego. Fracasso na política. 
Montei uma banda, achava que escrever algumas letras e ter bons amigos tocando seria o passaporte para deixarmos a vida de merda que vivíamos, outro fracasso e muito dinheiro gasto, escrevi poemas, puliquei livros, desconheço um só leitor deles. Fracasso como escritor. 
Gostar de gente foi outro fracasso. Sempre gostei de gente, independente de nível social ou posição política, condição sexual ou religiosa, gosto de gente e sempre tive problemas com gente. Por isso mesmo tenho apenas dois ou três amigos. Gostar de gente é também abrir a porta para viver as contradições humanas, isso é caminho certo para fracassadas relações. 
Um dia tive um cargo público, uma mulher se aproximou de mim, me convidava par ir a sua casa, tomar café, tocar violão, falar sobre a vida, política, arte e cultura. Era a amiga ideal (acreditei) quando deixei o cargo ela me expulsou da sua casa. Gente é bom, gente é problema. 
São muitos fracassos, a lista é grande, mas tenho consciência que o único responsável pelos meus fracassos sou eu mesmo, ninguém mais, ninguém é meu devedor. 
Assumir que é um erro ambulante, que tem em si uma central de equívocos talvez seja o caminho para, se envelhecer, ter uma velhice tranquila e em paz. Sou um Brás Cubas com caráter, ao menos nisso não fracassei, ter caráter. 

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