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O esquecido

Hoje fui procurá-lo, andei pelas ruas tristes e empoeiradas, entrei em igrejas, supermercados, padarias e praças. Procurei nos olhares, em algum sorriso, nos bares e cinemas, procurei em pessoas que dizem ter com ele uma relação íntima, não o encontrei. 
Foi fácil encontrar seu nome, encontrar quem diz ter nele toda razão da vida e comunhão com que há de mais sagrado, seu nome é doce e fácil de ser pronunciado, mas ele dificilmente é encontrado. Parece ter sido esquecido, agora, é apenas um nome distante do seu maior ensinamento: ninguém precisa morrer ou matar em seu nome ou em nome do seu pai, é preciso apenas amar, amar uns aos outros. No entanto, amamos apenas os que nos são iguais, amor ao próximo não é negar contradições e nem discordâncias, mas também não é jogá-lo na cova dos leões e ficar rindo do lado de fora. Amar uns aos outros não exclui a justiça e justiça não é vingança.
Transformaram seres humanos em pontes, nunca se sabe ao certo se somos amados ou amam o que temos ou representamos. A perversão tomou conta das emoções, o poder e dinheiro se tornaram o caminha, verdade e salvação. 
Na porta da igreja os que dizem ter nele salvação e glória estacionam carros nas calçadas forçando idosos e crianças a arriscarem suas vidas entre os carros guiados por gente que diz ter comunhão com ele, mas não diminuem a velocidade quando passam em poças de lama ou quando alguém atravessa a rua.
Fui ao Congresso Nacional, muita gente por lá se diz representante seu, mas desconhecem o significado de frases simples como: “ama teu próximo como a ti mesmo”, “oferece a outra face”, “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem”. No Congresso vi muitos defendendo armas e seus fabricantes ao mesmo tempo em que diziam glorificar seu santo nome.
Seu nome é cantado em canções adocicadas e dramáticas, mas sua essência se perdeu, falam dele como se fosse um soldado com espada na mão e pronto para matar em nome de seu pai, quando ele se recusou a guerra, ao rancor, ao ódio, quando ele perdoou seus algozes. 
O que ele fará quando aqui voltar é encontrar tanto ódio, intolerância, soberba e ganância justamente nos que se dizem homens e mulheres de bem? Justamente nos que se dizem guardiões dos mais sagrados valores familiares? Como o amor pode viver no coração de quem não tem empatia? De quem não faz caridade, mas propaganda de si mesmo ao oferecer e esperar com isso ganhar mais do que ofereceu?
Amar nosso igual é fácil, mas amar quem nos é estranho é o grande desafio. Amar quem não tem a nossa cor, sotaque, conta bancária, mesma religião, mesmos dentes escancarados para falsidade da existência, dizer que ama a família, mas não tramar contra a felicidade dela, são esses os desafios do amor, do amar ao teu próximo como a nós mesmos.
Ele me ensinou que nunca devo impor minha presença na vida de ninguém, se bater à porta e alguém abrir, entro, se não vou embora. Não se mata em nome do amor, não se odeia em nome do amor. Ele anda esquecido, mas um dia, quem sabe, além de gritarem seu nome, lembrarão também dos seus ensinamentos. 





















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